sábado, 24 de janeiro de 2009

Epígrafe

A palavra epígrafe não lhe saía da cabeça. Sentia como se ela lhe pertencesse tal como objeto de coleção. Tinha a consistência de uma pedra, ou melhor, de uma pérola. Pérola do colar de Beatriz. Ela lhe inspirava tanto medo quanto uma paixão profunda. Paixão que só sentira uma vez – isto de acordo com suas lembranças que, por sinal, não eram das melhores. Só sentira uma vez a paixão. Fora por sua prima, Nívea, doce mulher de cabelos claros, olhos cor de jabuticaba, peça inesquecível que bem caberia ser descrita mais fielmente por um desses detalhistas, como o Flôbér. E fora correspondido, o pobre. Mirrado, cabelos crespos, pé torto – que lhe fazia se sentir como não sei que personagem mitológico. Mesmo com tais caracteres pouco vantajosos, a morena lhe dera bola. O date, como dizem os americanos, ocorreu na casa da tia Provença – nome estranho esse, se não me engano vindo de certa região da Europa. Ele perguntou a ela se rolaria e ela nunca respondeu. Na ocasião seus lábios já haviam sucumbido à força de um beijo melado, típico daquela época em que os modelos de beijo provinham de filmes nada românticos.

Epígrafe, epígrafe, epígrafe. A palavra fora pronunciada pela primeira vez aos seus ouvidos em certo festival de música clássica ao qual fora convidado por sua professora de português.

- Escreves muito bem. Precisas agora tornar-te aplicado nas demais artes. Comecemos pela música.

E lá se fora ele sem saber que o Mozart que ouviria não era o ex-jogador do Flamengo. Sentando numa poltrona bem localizada do teatro, ouvira da boca de um desses maestros carecas, protótipos de desenhos animados:

- E como epígrafe a esse maravilhoso livro de nosso amigo Cláudio Nepomuceno, encontra-se uma das mais belas frases já escritas em nossa cultura ocidental: “Penso, logo sou”, de René Descartes.

Ele, o melhor da classe em português, desconhecia aquela apaixonante palavra: E-PÍ-GRA-FE. Polissílaba, proparoxítona. Era palavra para ser debulhada aos ouvidos incautos das donzelas. Donzelas como Beatriz – perdida nas primeiras linhas. Ele se recusava a verificar o significado da palavra no dicionário. Palavra como aquela era pra ser degustada, não pra ser perdida numa definição que começa com s.f. Era como se ela portasse um segredo, segredo de estado, enigma que se decifrado perderia logo seu encanto.

Pronunciara a palavra diversas vezes no gravador digital para poder ouvi-la em diversos matizes, em várias tonalidades. Enfurecia-se como nunca quando esquecia por descuido a caneta em casa e não tinha como ficar escrevendo cem, duzentas, trezentas vezes a palavra nos guardanapos dos bares.

Beatriz passou a sentir ciúmes da epígrafe. Qual o quê! Por acaso essa mísera proparoxítona não estava roubando-lhe todo o cortejo que ele lhe oferecia? Nem medo dela mais ele sentia. Passava pelos corredores do colégio dando aquele bom-dia que se dá pra qualquer pessoa conhecida. Entrou em depressão, a dama. Deu febremocional. Nem sabendo disso, ele voltou a lhe devotar os antigos amores. Só tinha olhos, ou melhor, ouvidos e boca para a palavra.

Deixou de fazer as lições. Nas aulas, passava os cinco horários escrevendo epígrafe de várias maneiras. 7 da manhã e lá estava no quadro negro a palavra escrita em cursiva ou em caixa alta. Ficara conhecido como o menino-da-palavra. Os médicos suspeitaram de autismo. Tentaram medicá-lo, mas ele não engolia os remédios. A mãe já não sabia o que fazer. Ele perdera o ano pois nas provas suas respostas eram sempre as mesmas: EPÍGRAFE.

Até que um dia a professora tivera o desatino de dizer aos alunos:

- Então, crianças, epígrafe é uma frase, uma citação ou um trecho de algum livro que é colocado antes do início de uma obra para...

Naquele dia seus ouvidos estavam mais permeáveis que de costume. Ele despertara. E fora sua vez de entrar em depressão.

Motivo? Saudade.